A questão de ética nas empresas tornou-se uma moda que, não mais que de repente, toda empresa precisa agora buscar e possuir.
Entendo, no entanto, que a questão da ética é mais profunda do que estamos vendo nos dias de hoje. Ela envolve aspectos além da mera atividade de responsabilidade social que cada empresa busca fazer, nos campos jurídico, econômico, ambiental e interno. Não devemos confundir estes conceitos, como demonstrarei aqui.
Mas, como diria Jack, vamos por partes.
Em primeiro lugar, é comum avaliar a questão ética face aos preceitos jurídicos. Assim, se uma empresa cumpre a lei, ela é consequentemente ética. Entretanto, o fato de se respeitar a legislação não faz de uma pessoa ou uma empresa automaticamente ética. Ao contrário, é possível encontrar-se empresas que, mesmo adequadas às normas legais, realizaram ações que feriram em muito os preceitos éticos econômico-sociais e causaram grande estrago no mundo.
Deixe-me dar um pequeno exemplo. Ao estruturar um fundo de investimentos nos EUA é necessário respeitar uma série de regulamentos da temida SEC (Security Exchange Comission) – a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) norte-americana. Bem, o caso é que fundos extremamente bem cotados, que geravam rentabilidade de milhões de dólares para investidores no mundo inteiro, acabaram provocando uma das maiores crises financeiras em décadas[1]. No entanto, estes fundos cumpriam com as exigências legais e regulamentares dos órgãos fiscalizadores norte-americanos.
O que deu errado, então? Bom, muita coisa. Para começar, a ciranda financeira em que o mundo estava metido não permitia que os operadores financeiros parassem e pensassem: “puxa, vender casas e imóveis de luxo a pessoas que não podem pagar e, depois, empacotar estas dívidas e pulverizá-las no mercado pode não ser um bom investimento, afinal.” Estes operadores precisavam dar o retorno que todos no mercado estavam dando com o mesmo tipo de ativo. Se eles não fizessem aquilo, outros fariam e lhes retirariam esta fatia do mercado. Como é possível, então, a posteriori, achar que o Goldman Sachs, o Citibank, o Santander e o falido Lehman Brothers – só para citar alguns – eram anti-éticos se, naquele momento, faziam o que era esperado deles? Neste ponto, a responsabilidade social pode até estar de acordo, mas as atividades eram anti-eticas em essência.
Avaliemos agora a vertente econômica da responsabilidade social e da ética.
Certa vez, o presidente da França, Georges Pompidou, disse que há três caminhos para se cair em desgraça: o mais rápido é o jogo; o mais agradável são as mulheres; o mais seguro é consultar um economista[2]. A economia nada mais é do que o estudo das consequencias não-intencionais das ações humanas. Portanto, atribuir uma visão simplista da economia, em que os lucros e empregos são desejáveis, não leva em conta um pano de fundo cada vez mais agressivo no mercado e nas relações econômicas.
Dizer que hoje as empresas operam de forma ética, mesmo considerando que existe alguma legislação para abuso de monopólios e oligopólios, é acreditar que as galinhas estarão seguras com os lobos tomando conta. As empresas monopolistas oprimem os ganhos das outras por maior participação de mercado, pouco se importando com lucros e empregos. Às vezes, para manter-se como monopólio, as empresas diminuem a eficiência operacional, impõem barreiras a novos competidores e fazem lobby no congresso para impedir a entrada de estrangeiros no mercado. Atitudes como estas são comuns e não olhar para isso é, no mínimo, ingenuidade. De novo, a responsabilidade de gerar lucro da empresa está resguardada, mas esmagar pequenos concorrentes pode até ser divertido, mas não é ético.
Quanto à questão ambiental, tenho uma simples palavra: Petrobras. Não sou contra a empresa em si, apesar de achá-la ineficiente e influenciada negativamente pelo governo (seu maior acionista). O ponto é que existe uma série de problemas no direcionamento estratégico da empresa que põem em risco sua sustentabilidade e a sustentabilidade do planeta no longo prazo.
Sua missão, como descrita em comerciais de TV, é prover energia. No entanto, a Petrobras consegue, em um momento de flagrante problema ambiental, focar seus esforços para extrair mais combustível fóssil não renovável (petróleo) de profundezas abissais, sem nenhuma preocupação com o impacto futuro deste tipo de tecnologia. É evidente que estes combustíveis serão descartados brevemente em face das novas alternativas renováveis (solar, eólica, hidrelétrica, etc.), menos poluentes e menos danosas para o meio ambiente. É claro que atualmente ninguém diz que a Petrobras é anti-ética com o meio ambiente. Talvez, em um futuro breve, ouviremos este discurso depois de bilhões de reais terem sido jogados fora.
Por fim, vale a pena comentar algo sobre o modo como as empresas trabalham atualmente.
Há uma tendência clara de crescimento populacional no planeta. Estimativas dão conta de que a população mundial se estabilize em torno de 9,5 bilhões de almas[3]. Se a capacidade de se gerar emprego para todos os 6 bilhões de habitantes já é ínfima hoje, imagine em 50 anos, quando atingirmos este pico de pessoas. Como exigir que países como a China deixem de utilizar mão-de-obra irrisoriamente paga para fabricação de produtos que serão utilizados por todos? Quanto mais pessoas no mundo houver, maior a disponibilidade de mão-de-obra para as empresas, o que facilitará cada vez mais a perda dos direitos trabalhistas (se é que existe isso em algumas partes do mundo). Este quadro poderá se deteriorar até uma situação em que as empresas que não reduzirem seus custos de mão-de-obra ficarão à mercê de uma falência ou coisa que o valha. Neste caso, a empresa que contrata funcionários de menor valor para seus postos de trabalho, ou terceiriza parte de sua estrutura não essencial não deixa de possuir responsabilidade social, pois age de acordo com as possibilidades estabelecidas para seu público interno, ou seja, preservando sua parte essencial.
Creio que todos que ainda lêem esta análise já entenderam a esta altura onde quero chegar.
Ter responsabilidade social não significa necessariamente ser ético.
Para Aristóteles, existia a pessoa virtuosa. O virtuoso era aquele que agia em função do que acreditava ser o bem puro. Este era o ético, aquele que agia de acordo com a natureza boa das coisas[4]. A ética grega, foi substituída pela ética pragmática de Kant, em que existia um imperativo do que era bom, externo aos seres humanos (geralmente em Deus). A escolha ética era feita por respeito ao que é certo. Existe uma terceira vertente que diz que o certo depende da maximização utilitarista, ou seja, do que é maximiza o prazer e diminui a dor das pessoas, respeitando os limites e a felicidade do outro.
A definição utilitarista, apesar de razoável, nos põe a seguinte contradição: se eu consigo maximizar meu bem-estar ganhando mais dinheiro, aumentando a felicidade (ou atendendo à necessidade) do outro, vendendo um bem, devo fazer isso. A implicação é que caso eu esteja vendendo um produto danoso à saúde em longo prazo (vamos dizer, cigarros), apesar de eu estar maximizando a felicidade do outro, estou condenando as pessoas a fazer algo que não farão bem a elas futuramente, mesmo que aumente a felicidade no presente.
O ponto aqui é o seguinte: a questão utilitarista atribui um sentido ético a qualquer transação de qualquer mercadoria, independente se ela é uma droga ilícita, lícita, ou um serviço digno ou degradante (p.ex. prostituição – afinal de contas a prostituta ganha seu dinheiro e o homem recebe prazer em troca).
Por fim, para demonstrar como a questão ética ainda não está resolvida em termos práticos, segue uma reportagem sobre a questão do consumo de cigarros no mundo. As empresas de cigarro são as que mais têm se preocupado com responsabilidade social e ética. Considerando a responsabilidade social fundamentada em quatro pilares (meio ambiente, economia, legalidade e respeito ao público interno) e a ética utilitarista, esta empresa atende a todos os requisitos, passando no teste ético / responsável socialmente. No entanto, atingir este número de 1 em cada 5 pessoas morrendo de doenças causadas pelo fumo é algo a se pensar.
Oct 29th 2009
From Economist.com
Where smoking kills most people[5]
NEARLY one in five deaths in rich countries is caused by smoking, according to new data released this week by the World Health Organisation. In 2004, the latest year for which data are available, tobacco use killed an estimated 5.1m people worldwide, or one in every eight deaths of adults aged 30 and over. Residents of richer countries are suffering more now because they have been smoking longer: cancers and chronic respiratory diseases caused by tobacco smoke take a long time to develop. Deaths in poor countries, where many more people have taken on rich-world smoking habits in recent decades, are predicted to rise dramatically in the next 20 years.

[1] São os fundos
subprime, que geraram uma onda de turbulências financeiras que já duram um ano.
[2] Fonte: Roberto Campos. A lanterna na popa – memórias. Vol 2. Topbooks: p.1292.
[3] Fonte: Al Gore. Documentário: Uma verdade inconveniente. Paramount: Nov/2007.
[4] Aristóteles. Ética a Nicômaco. Extraído do texto de Conard, Skoble e Irwin, Os Simpsons e a Filosofia, p.8.
[5] Acessível no site HTTP://www.economist.com